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Livros para adiar o fim do mundo

Um cantinho para "falar" de livros, para trocar ideias, para descobrir o próximo livro a ler.

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Livros para adiar o fim do mundo

04
Fev14

Um dia como os outros (Fim)

livrosparaadiarofimdomundo
        Na rua,atravessou o pátio, o cão aproximou-se dela e ganiu baixinho. Ela baixou-se,acariciou-lhe a cabeça com força, envolveu o focinho nas mãos e amou-osentidamente. O cão ganiu de novo, mas ela afastava-se e o animal ficouespecado no meio do pátio, a cabeça baixa, sem desviar os olhos, mas ela já nãoviu. Saiu para a rua e voltou a inspirar com força. Contornou a casa epercorreu o baldio que ficava nas traseiras. Em pouco tempo chegou ao poçoantigo, afastou a prancha de madeira, solta, que tapava a boca e olhou lá paradentro. O cheiro húmido atingiu-a. O poço estava meio cheio. Via-se o espelhode água imóvel, muito escuro. Não era possível ver o fundo, mas ela sabia que aprofundidade era grande. Era um daqueles poços que cada família construía háuns anos, as paredes exteriores estavam cobertas de musgo e verdete, asuperfície era rugosa, áspera. Lá dentro, as paredes eram lisas e cinzentas, comum aspecto lavado. Ela fechou os olhos e continuava a saber que era ela que aliestava, pousou as mãos em cima do parapeito e deixou que uma onda de si mesma asubmergisse. Viu-se todos os dias a fazer a mesma coisa e todos dias cada vezmais mais fora de si. Viu-se estrangeira perante os outros. Viu-se cansada,cansada, cansada. Sabia que não podia desistir, que não podia descansar de simesma. Se pudesse podia ser que aquele peso no peito fosse suportável. Mas nãoera.
            Não sabia quando é que tinha tomadoa decisão, não o podia explicar. Naquela manhã, quando abriu os olhos sabiaexatamente o que ia fazer, como se fosse mais uma tarefa na ordem do dia. Semreceio, sem susto, com precisão, dobrou-se sobre o parapeito, sentiu os pés alevantarem-se do chão, sentiu o corpo a deslizar pela parede. Perdeu ocontrolo, caiu. A água muito fria impediu-a de respirar e o corpo submergiuentre um chuá que deixou um eco estranho, uma agitação branca que respingou nasparedes… e mais não se sabe, só se imagina.

            Daí a pouco, o marido e os filhoschegariam para almoçar, como noutro dia qualquer.

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